Estudantes de educação profissional investigaram suas próprias comunidades e descobriram uma farmácia viva. Agora, a ciência confirma: a tradição popular conhecia tudo isso. Esta é a história de 12 plantas, 11 pesquisadores e um conhecimento que levou séculos para se construir — e que merecia ser honrado.
Quando a escola aprende com a comunidade
Janela da escola para a Caatinga. Estudantes olhando para suas próprias famílias com olhar novo. Isso começou como pesquisa escolar. Mas virou documentação de um conhecimento que atravessou gerações sem nunca aparecer num livro.
No Assentamento Salgado Comprido, na zona rural de Itarema, avós curavam febres com Janaguba. Mães faziam chás de Pata-de-Vaca para controlar açúcar no sangue. Comunidades inteiras utilizavam Quebra-Pedra sem saber que estavam usando um diurético mais sofisticado que qualquer medicamento sintético. E ninguém estava anotando isto em lugar algum.
"A ciência moderna está apenas começando a validar o que as comunidades rurais sempre souberam. E enquanto isso, essas plantas estão sendo ameaçadas."
— Pesquisa Escolar, EEMPC Francisco Araújo Barros, 2025
Uma turma de jovens pesquisadores decidiu que esse conhecimento merecia ser preservado. Que suas comunidades mereciam ser celebradas. Doze plantas. Doze histórias. Uma verdade que ecoa através de gerações.
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui orientação de profissionais de saúde. Antes de utilizar qualquer planta medicinal, consulte um médico ou farmacêutico. As informações aqui apresentadas são baseadas em saberes populares documentados e pesquisa escolar.
A farmácia viva da Caatinga — 12 espécies
Cada planta representa séculos de experimentação prática. Nenhuma delas foi descoberta em laboratório. Todas foram descobertas através da observação contínua, do erro, do acerto, da transmissão entre gerações.
Guia completo das plantas medicinais
Chanana — A Flor da Resiliência
Turnera subulata · Família Turneraceae
Nomes populares: flor-do-Guarujá, boa-noite, onze-horas, damiana, xanana
Pequena flor branca com centro escuro que abre sempre no mesmo horário (por isso "onze-horas"). Herbácea, de 30 a 80 cm de altura, com folhas aveludadas. Muito comum nos quintais das comunidades rurais de Itarema.
Anti-inflamatória, analgésica, calmante e cicatrizante. Usada para dores musculares, ansiedade leve, gargarejos em dor de garganta, cicatrização de feridas, dores crônicas, inflamações, problemas digestivos, febres e infecções urinárias.
- Chá: 1 colher de folhas ou flores em 1 xícara de água quente. Deixar descansar 10 min, coar e beber.
- Mel de Chanana: Pétalas em mel por 24h. Tomar 1 colher 3× ao dia.
- Compressa: Amassar folhas frescas com azeite. Aplicar por 30 min na região afetada.
A abertura das flores sempre no mesmo horário é uma resposta ao fotoperíodo — a planta "sabe" a hora através da luz solar. Por isso, em toda a região, é chamada de "onze-horas": a hora em que o campo floresce.
- Uso moderado — não exceder a dose indicada
- Contraindicado durante gravidez e amamentação
- Testar alergias antes do uso tópico
- Coletar somente de locais livres de agrotóxicos e poluição
Pata de Vaca — O Controle do Açúcar
Bauhinia forficata · Família Fabaceae
Nome popular: Pata de Vaca, Mororó
Árvore robusta com folhas características em formato de pata (divididas ao meio, bilobadas). Flores roxas ou rosadas. Muito comum em quintais rurais e jardins das comunidades. A forma das folhas é inconfundível — cada uma parece a marca de uma pata bovina impressa na árvore.
Controla diabetes naturalmente, auxilia a digestão e contribui para a saúde dos rins com efeito diurético. As comunidades a usam para reduzir açúcar no sangue, melhorar a digestão, limpar os rins e garantir o bom funcionamento urinário.
- Chá de folhas secas: 1 colher em 1 litro de água. Ferver 5–10 min, deixar descansar 10 min, coar e beber ao longo do dia.
Estudos farmacológicos confirmaram que a Bauhinia forficata possui compostos com ação hipoglicemiante — ou seja, que reduzem o açúcar no sangue. A sabedoria popular antecedeu a ciência por séculos neste caso.
- Não substitui medicamentos para diabetes — uso complementar
- Pode baixar muito a glicose se usada com remédios — monitorar
- Uso excessivo pode prejudicar fígado e rins
- Contraindicado em gravidez e amamentação
- Crianças devem evitar sem orientação médica
💡 Você sabia?
Quando voc usar uma planta medicinal documentada nesta pesquisa, estará participando de um experimento científico que começou antes da medicina moderna existir. Estará confirmando, com sua experiência, a sabedoria que sua comunidade sempre soube.
Carnaúba — A Árvore da Vida
Copernicia prunifera · Família Arecaceae
Nomes populares: carnaubeira, carnaúva, carandaúba, caranaúba
Palmeira nativa do Nordeste, chegando a 15 metros de altura. Folhas em forma de leque contêm cera valiosa. Frutos comestíveis, madeira para construção, raízes medicinais. Símbolo do Ceará e uma das espécies mais versáteis da flora nordestina.
As raízes são usadas como diuréticos e depurativos — limpam o sangue e tratam inflamações. As folhas são trançadas para artesanato. A cera tem múltiplos usos industriais. Os frutos são nutritivos e comestíveis.
- Chá das raízes: uso diurético tradicional — raízes secas em água fervente.
- Cera: aplicada em móveis, automóveis e produtos industriais.
- Folhas trançadas: bolsas, chapéus, cestos e peças de artesanato.
- Frutos: consumo in natura ou em preparações culinárias.
A cera de carnaúba entrou na composição de cosméticos, ceras de automóvel, revestimentos industriais e isolantes elétricos em todo o mundo, rendendo ao Ceará o apelido de "Terra da Luz". Uma árvore que sustenta famílias e alimenta mercados globais.
- Espécie ameaçada por pragas invasoras (unha-do-diabo, ácaro-vermelho)
- Preservação ambiental é essencial — não desmatar áreas de carnaúbal
- Coleta de cera deve ser feita de forma sustentável, sem dano à palmeira
Torém — A Árvore da Recuperação
Cecropia pachystachya · Família Urticaceae
Nomes populares: Embaúba, Imbaúba, Árvore-da-Preguiça
Árvore nativa brasileira, comum em solos úmidos e áreas em recuperação. Folhas em forma de guarda-chuva, muito características. Cresce rápido e é colonizadora de áreas degradadas — é a primeira árvore a aparecer quando um solo perturbado começa a se recuperar.
Anti-inflamatória, antioxidante, cardiovascular. As comunidades a usam para pressão alta, inchaços, problemas renais e inflamações gerais. A folha é o principal elemento medicinal da planta.
- Chá das folhas: 1 folha seca em 500 ml de água. Ferver 3–5 min, infusionar 10–15 min, coar e beber.
- Pasta para feridas: Amassar folhas frescas, aplicar em ferida limpa, cobrir com gaze. Trocar 1–2×/dia.
O Torém é chamado de "pioneiro" porque é uma das primeiras espécies a colonizar terrenos desmatados, preparando o solo para que árvores maiores se estabeleçam. É, literalmente, a planta que inicia a cura da mata.
- Contraindicado em gravidez e amamentação
- Evitar em crianças sem supervisão médica
- Não usar por mais de 15 dias consecutivos
- Consultar profissional de saúde antes do uso prolongado
Bredo — A Planta Nutritiva
Amaranthus deflexus / A. viridis · Família Amaranthaceae
Nomes populares: Bredo, Caruru
PANC — Planta Alimentícia Não Convencional. Rústica, altamente nutritiva e importante culturalmente no Norte e Nordeste. Existe na versão sem espinhos (A. viridis) e com espinhos (A. spinosus). Identificar corretamente é essencial antes do uso.
Altamente nutritivo (ferro, cálcio, potássio, zinco, vitaminas A, C e E). Antibacteriano natural. Auxilia a digestão e combate enjoos. Pode ser consumido como alimento (refogado) e como remédio.
- Suco natural: 100g de folhas + 200 ml de água. Bater e coar.
- Chá das folhas: 1 colher em 200 ml de água. Infusionar 5–10 min.
- Compressa: 2g de folhas secas em 200 ml de água. Deixar agir 10–15 min.
- Refogado: Folhas frescas refogadas com alho e azeite — nutritivo e saboroso.
O Bredo tem teor de proteína comparável ao espinafre e ferro superior a muitas carnes vermelhas. Na medicina popular nordestina, é indicado para anemia e fraqueza — e a ciência confirma essa eficácia pelo seu alto teor mineral.
- Uso moderado — não exagerar nas quantidades
- Gestantes e crianças: somente com orientação médica
- Testar alergias antes do uso
- Identificar corretamente a espécie antes de consumir
Quebra-Pedra — O Defensor dos Rins
Phyllanthus niruri · Família Phyllanthaceae
Nome popular: Quebra-Pedra, Arrebenta-Pedra, Erva-Pombinha
Planta herbácea pequena (30–60 cm), com caule fino ereto e folhas minúsculas. Tem uma característica visual inconfundível: sementes redondas alinhadas na parte de baixo dos ramos — como pequenas pérolas. É uma das plantas medicinais mais conhecidas no Nordeste.
Previne cálculos renais e vesiculares. Diurética poderosa. Antiespasmódica (alivia cólicas). Hepatoprotetora (protege o fígado). Elimina toxinas, reduz inchaços e facilita a expulsão de cristais do sistema urinário.
- Chá de infusão: 1 colher de planta seca em 250 ml de água quente. Deixar infusionar 10 min, coar e beber.
- Compressa: 2g de folhas secas em 200 ml de água. Deixar agir 10–15 min na região afetada.
Estudos publicados em revistas científicas internacionais confirmaram a ação do Phyllanthus niruri na inibição da cristalização de oxalato de cálcio — a principal causa de cálculos renais. A ciência validou o que as avós do sertão já sabiam há gerações.
- Usar no máximo 2 semanas consecutivas
- CONTRAINDICADO em gravidez e amamentação — potencial abortivo
- Cuidado com medicamentos para diabetes e pressão arterial
- Não recomendado para crianças sem supervisão
- Insuficiência renal grave requer supervisão médica obrigatória
Janaguba — A Leiteira Sagrada
Himatanthus drasticus · Família Apocynaceae
Nomes populares: Janaguba, Leiteira, Janaúba
Árvore nativa da Amazônia e do Nordeste. Frutos com sementes grandes. Flores brancas e muito fragrantes. Conhecida pelo látex (leite) medicinal extraído da casca — um líquido branco e espesso que escorre quando a casca é incisada.
Anti-inflamatória, cicatrizante, vermífuga. Trata gastrite, úlceras, infecções, febre e dores. Muito usada na medicina popular da Caatinga, inclusive relatada para tratamento de doenças graves — porém sem comprovação científica consolidada.
- Diluição em água: 18 gotas de látex em 1 litro de água filtrada. Tomar 1 copo pequeno em jejum. Conservar na geladeira.
No Assentamento Salgado Comprido, as avós curavam febres altas com Janaguba quando não havia acesso à farmácia. O látex era guardado como tesouro doméstico, passado de mão em mão entre as famílias que conheciam seu preparo correto.
- Uso moderado e cauteloso — dose exata é importante
- Contraindicado em gravidez e amamentação
- Possíveis reações alérgicas ao látex — testar antes
- Identificar corretamente a espécie antes do uso
- Não substitui tratamento médico convencional
Alecrim-Pimenta — A Planta do Semiárido
Lippia sidoides · Família Verbenaceae
Nomes populares: Alecrim-do-Nordeste, Alecrim-da-Caatinga
Arbusto silvestre nativo da Caatinga nordestina, chegando a 3 metros de altura. Folhas pequenas e muito aromáticas. Especialista em clima seco e ensolarado — quanto mais seco, mais concentrado é seu óleo essencial e maior seu poder medicinal.
Potente ação anti-inflamatória, antisséptica e antimicrobiana (rico em timol e carvacrol, os mesmos compostos ativos do tomilho e do orégano). Trata infecções de pele, inflamações bucais, dor de garganta, feridas, acne e micoses.
- Chá: 2–3g de folhas em 150 ml de água. Infusionar 5–10 min. Preferencialmente para bochechos ou gargarejos.
- Compressa: 2–3g de folhas em 1 xícara de água. Infusionar 10 min. Aplicar em pano ou gaze na região afetada.
O timol e o carvacrol presentes no Alecrim-Pimenta são estudados pela farmacologia como alternativas naturais a antibióticos. Pesquisas da Embrapa Nordeste desenvolveram formulações de enxaguante bucal e sabonete com extrato da planta.
- Uso MODERADO — é uma planta de ação forte
- Preferir uso tópico (externo) ao inverno
- Contraindicado em gravidez e crianças pequenas
- Pode causar reações alérgicas — testar pequena área primeiro
- Identificar corretamente a espécie antes de usar
💡 Você sabia?
As plantas medicinais da Caatinga desenvolveram compostos ativos altamente concentrados como estratégia de sobrevivência ao calor e à seca extremos. É por isso que muitas delas têm ação medicinal mais potente que espécies de clima úmido. A resistência ao ambiente tornou-as mais poderosas.
Aroeira da Praia — A Cicatrizante Marinha
Eugenia punicifolia · Família Myrtaceae
Nomes populares: Ameixa-do-mato, Aroeira da Praia
Arbustiva ou pequena árvore de 2 a 6 metros. Folhas ovais e lisas. Flores esbranquiçadas ou amareladas. Fruto arredondado e carnudo, amarelo ou alaranjado — como uma pequena ameixa. Cresce especialmente bem em áreas litorâneas e de restinga.
Anti-inflamatória, antibacteriana natural e cicatrizante poderosa. Trata inflamações localizadas, combate bactérias e acelera a cicatrização de feridas. Usada pelas comunidades costeiras para feridas, cortes e inflamações de pele.
- Compressa com chá das folhas: 1–2g de folhas secas em 200 ml de água. Deixar descansar 5–10 min. Mergulhar pano ou gaze e aplicar por 10–15 min, 1 a 2× ao dia.
A Aroeira da Praia é especialmente valorizada pelas famílias de Morro dos Patos e das comunidades costeiras de Itarema. A proximidade com o mar, onde os cortes e feridas são comuns entre pescadores, tornou essa planta um recurso doméstico indispensável.
- Uso moderado para evitar desconfortos digestivos se ingerida
- Gestantes e crianças: evitar sem orientação médica
- Testar alergias antes do uso em pele sensível
- Uso preferencial externo (tópico)
Batiputá — O Óleo Sagrado Tremembé
Ouratea parviflora · Família Ochnaceae
Nomes populares: Jabutapitá, Manteiga-de-Batiputá, Coração-de-Bugre
Arbusto nativo da costa cearense, com frutos ricos em óleo comestível e medicinal. Conhecimento de profundo valor para a cultura do povo indígena Tremembé, que habita a região de Itarema há séculos. Os sinônimos "coração-de-bugre" e "jabutapitá" revelam sua longa história de uso nativo.
Cicatrizante para queimaduras e cortes. Anti-inflamatório para artrite, reumatismo e dores musculares. Trata colesterol alto. Considerado "santo remédio" pelo povo Tremembé — uma das plantas medicinais mais respeitadas da tradição indígena cearense.
- Chá das folhas: 1 colher em 1 litro de água. Ferver, deixar infusionar 10–15 min, coar e beber.
- Óleo das sementes (tópico ou culinário): Aquecer em banho-maria até liquefazer. Massagear a região por 20–30 min.
O povo Tremembé de Itarema mantém vivo o conhecimento sobre o Batiputá como parte essencial de sua identidade cultural. Para eles, o uso dessa planta é inseparável da espiritualidade, do cuidado com o território e da transmissão de saberes entre anciãos e jovens.
- Aquecer o óleo APENAS em banho-maria — nunca deixar ferver diretamente
- Uso com orientação profissional recomendado para doenças crônicas
- Respeitar o conhecimento tradicional indígena na origem do uso
Pepaconha — A Pequena Guerreira
Pombalia calceolaria · Família Violaceae
Nomes populares: Papo-de-peru, Papo-de-galo, Erva-de-lagarto, Pombinha
Herbácea pequena com caule fino ramificado, folhas simples miúdas e flores claras. Nativa da Caatinga nordestina — ocorre no Piauí, Ceará, Bahia e Pernambuco. Muito adaptada ao clima seco, cresce nos lugares mais áridos com discrição e eficiência.
Anti-inflamatória, antibacteriana e cicatrizante. Alivia problemas digestivos, prisão de ventre, tosse e catarro. Laxante e expectorante natural — age suavizando as vias respiratórias e estimulando o funcionamento intestinal.
- Chá das folhas: 1 colher de planta picada em 250 ml de água. Ferver 5–10 min. Tampar e deixar descansar alguns minutos antes de coar.
A Pepaconha pertence à família das violetas (Violaceae) — a mesma família da flor violeta conhecida mundialmente. Sua presença na Caatinga mostra como essa família botânica se adaptou a climas extremos, produzindo espécies com propriedades medicinais únicas.
- USO MÍNIMO — dosagem adequada ainda não bem definida cientificamente
- Intoxicação por uso excessivo — respeitar pequenas quantidades
- Efeito laxante forte pode causar desidratação se abusado
- Orientação profissional de saúde é essencial antes do uso
Mussambê — A Resistente da Caatinga
Cleome spinosa · Família Cleomaceae
Nome popular: Mussambê, Mussambe, Caarobinha
Planta com flores pequenas roxas ou rosadas, folhas verdes e cheiro forte muito característico. Muito resistente ao clima seco da Caatinga — cresce onde outras plantas desistem. Pode ser encontrada em terrenos secos, bordas de estradas e roças abandonadas.
Anti-inflamatória (reduz inflamações no corpo), alivia dores musculares e reumáticas, antibacteriana (combate infecções). Muito usada na medicina popular nordestina, especialmente pelas gerações mais antigas das comunidades rurais.
- Chá das folhas: Preparo tradicional em infusão. As informações completas sobre dosagem devem ser obtidas com os moradores mais antigos da comunidade ou com profissional de saúde habilitado em plantas medicinais.
O cheiro forte do Mussambê é produzido por compostos voláteis que a planta libera como mecanismo de defesa contra predadores. Esses mesmos compostos têm ação antimicrobiana confirmada — a planta "defende-se" de bactérias na natureza e pode ajudar a combatê-las no organismo humano.
- Uso moderado recomendado — iniciar com pequenas quantidades
- Gestantes e crianças: evitar sem orientação médica
- Consultar moradores experientes ou profissional de saúde para dosagem correta
Como identificar e registrar plantas medicinais
A pesquisa realizada pelos estudantes da EEMPC Francisco Araújo Barros seguiu uma metodologia rigorosa de documentação. Preservar esse conhecimento exige mais do que coletar folhas — exige respeito, cuidado e método.
Registre como a planta é chamada na comunidade e busque o nome científico para identificação precisa.
Folha, raiz, casca, fruto, látex — cada parte tem princípios ativos diferentes. Especificar é essencial.
Entrevistar os mais velhos com respeito e paciência. O saber oral é tão válido quanto o saber escrito.
Coletar somente em locais livres de agrotóxicos, poluição e distantes de rodovias.
Pesquisar e documentar contraindicações, especialmente para gestantes, crianças e pessoas com doenças crônicas.
Cruzar o saber popular com pesquisas científicas disponíveis. Um não invalida o outro — se complementam.
Pesquisa escolar e ciência: a escola que celebra sua comunidade
Quando uma jovem pesquisadora como Karen Thaís investiga as plantas medicinais de sua comunidade, ela não está fazendo "pesquisa sobre" sua comunidade. Ela está afirmando que sua comunidade, suas avós, seu conhecimento, merece respeito. Ela está dizendo: isso importa. Somos importantes. Nossa sabedoria é importante. E isso é revolucionário.
A pesquisa foi conduzida pela turma 2º Ano A Técnico — Turma Manoel Louvado da EEMPC Francisco Araújo Barros, com orientação técnica da equipe pedagógica. Cada estudante investigou uma ou mais plantas, combinando pesquisa de campo nas comunidades com documentação científica.
Biodiversidade e sustentabilidade: o que está em risco
A ciência moderna está apenas começando a validar o que as comunidades rurais sempre souberam. E enquanto isso, essas plantas estão sendo ameaçadas.
- Pragas invasoras atacam espécies como a Carnaúba, ameaçando sua população
- A Caatinga sofre pressão crescente de desmatamento para pasto e agricultura convencional
- Conhecimentos tradicionais desaparecem conforme jovens migram do campo para as cidades
- Uso indiscriminado sem reposição ameaça populações de plantas medicinais silvestres
- Mudanças climáticas alteram os ciclos de floração e a distribuição das espécies
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro — não existe em nenhum outro país do mundo. E abriga uma diversidade de plantas medicinais adaptadas ao semiárido que ainda é pouco estudada pela ciência formal. Cada espécie perdida é um livro de medicina que se fecha para sempre.
O uso consciente e sustentável significa coletar apenas o necessário, nunca arrancar plantas inteiras, replantá-las em quintais e hortas medicinais comunitárias e transmitir o conhecimento do preparo correto às novas gerações.
O conhecimento que não pode desaparecer
Enquanto você lê isto, alguém no sertão está colhendo uma folha de Chanana. Alguém está preparando chá de Pata de Vaca. Alguém está aplicando Batiputá em uma queimadura. Alguém está usando conhecimento que nunca apareceu em nenhum livro de medicina, mas que funciona há séculos.
Agora, graças a esses jovens pesquisadores, esse conhecimento está documentado. Está preservado. Está honrado. A próxima vez que você usar uma planta medicinal, lembre-se: você está usando sabedoria destilada em tempo, experiência e gerações de observação cuidadosa. Você está confiando na medicina mais testada que existe: a medicina do povo que conhece a natureza porque vive nela.
"Toda cura vem da natureza. Toda sabedoria vem da observação. Toda tradição é conhecimento que merece ser honrado."
— EEMPC Francisco Araújo Barros · Itarema, CE · 2025
A luta pela preservação dessas plantas, desses conhecimentos, dessa forma de estar no mundo — continua. E agora ela tem nomes: Karen, José Alysson, Mariah, Maria Clara, Maria Emanuelly, Allan, Kauemberg, João Pedro, Eduarda, Suelen. Jovens pesquisadores que decidiram que suas comunidades mereciam ser celebradas. E tinham razão.
As informações desta página têm finalidade educativa e de preservação cultural. Não substituem a orientação de médicos, farmacêuticos ou outros profissionais de saúde habilitados. Consulte sempre um profissional antes de utilizar plantas medicinais, especialmente em casos de gravidez, amamentação, doenças crônicas ou uso de medicamentos.
Créditos e ficha técnica
Karen · José Alysson · Mariah · Maria Clara · Maria Emanuelly · Allan · Kauemberg · João Pedro · Eduarda · Suelen e colegas
Educação Profissional em Tempo Integral · Itarema, CE
O Verdadeiro Tesouro do Sertão: saberes medicinais da Caatinga cearense
Comunidades de Saguim, Corrente, Cedro e entorno · Itarema, CE
▶ Referências bibliográficas
- AGRA, Maria de Fátima et al. Medicinal and poisonous diversity of the flora of "Cariri Paraibano", Brazil. Journal of Ethnopharmacology, v. 111, n. 2, 2007.
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- BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília: MS, 2006.
- CARTAXO, Sônia Lúcia Moreira et al. Medicinal plants with bioprospecting potential used in semi-arid northeastern Brazil. Journal of Ethnopharmacology, v. 131, 2010.
- LORENZI, Harri; MATOS, Francisco José de Abreu. Plantas Medicinais no Brasil: nativas e exóticas. 2. ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2008.
- MATOS, Francisco José de Abreu. Plantas Medicinais: guia de seleção e emprego de plantas usadas em fitoterapia no Nordeste do Brasil. 3. ed. Fortaleza: Edições UFC, 2007.
- RODRIGUES, Eliana; CARLINI, Elisaldo Araújo. Plants with possible psychoactive effects used by the Krahô Indians, Brazil. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 28, 2006.
- SANTOS, Luzimara Ferreira dos; LIMA, João Batista Melo de. Etnobotânica e uso de plantas medicinais em comunidades rurais do Ceará. Fortaleza: EMBRAPA Agroindústria Tropical, 2014.
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- TROPICOS.ORG. Missouri Botanical Garden. Disponível em: https://tropicos.org. Acesso em: maio 2025.